jan 272010
 

Em 2011

Eu me casaria, juntaria os três filhos dele com a minha filha única e os amaria tanto quanto amo minha filha e dois anos depois teríamos mais pelo menos três filhos saídos de dentro de mim e ao todo teríamos sete filhos, uma família composta por nove pessoas que se amariam e se respeitariam acima de tudo. Ele seria médico e estaria concluindo sua residência e eu seria mãe, esposa, publicitária e mais alguma coisa e assim teríamos um tão sonhado e do nosso jeito “Felizes para sempre”.

Mas no dia 15/10/2007 ele foi assassinado vitima de latrocínio e cada dia tem se tornada mais difícil viver sem ele.

Eu o conheci eu tinha verdadeira antipatia por aquele homem, eu sentia uma coisa absurda quando olhava pra ele, mas não era nem amor, nem ódio era algo indecifrável. Eu sempre o encontrava ele morava no mesmo bairro que eu, no ultimo ano que eu estava na faculdade ele passou no vestibular pro mesmo curso que o meu e eu pensei: “Não acredito que vou ter que encontrar esse homem aqui também” Mas eu fazia tudo para encontrá-lo pelos corredores da faculdade, eu procurava vê-lo, mas negava pra mim. No mesmo ano fui fazer uma especialização em marketing político e por incrível que pareça ele também foi fazer a mesma especialização e lá ele sentou perto de mim, tivemos contato intenso e soube que ele tinha o mesmo sentimento indecifrável por mim, de lá então não nos desgrudamos, ele passou a ser um pedaço enorme de mim e a cada dia que passava eu conseguia dizer o quanto eu o admirava e que era mais do que isso mas eu não sabia explicar nem dizer o que eu sentia. E em pouco tempo ele sabia tudo de mim e eu sabia tudo dele o conhecia de forma intensa e verdadeira. Mas ainda tínhamos medo de externar o que sentíamos e não vivemos o que tínhamos pra viver, no mesmo ano ele decidiu largar publicidade e correr atrás do sonho dele. Ele foi fazer medicina na Bolívia e meu coração ficou tão pequeno com uma sensação de: “não vai ser mais como antes” Então planejamos o nosso sonho, planejamos nossos encontros. Depois que ele foi pra Bolívia nos encontramos apenas mais duas vezes e o ultimo abraço foi o mais forte um abraço diferente de todos que eu já tinha recebido de qualquer outra pessoa e naquele minuto eu pensei: “Ele é homem da minha vida”

Ele voltou pra Bolívia, no feriado prolongado do dia 12 de outubro ele volta de surpresa para passar o feriadão aqui, na madrugada do dia 12 para o dia 13 ele chegou e no dia 14 me ligou e eu quase tive um troço de tanta alegria e surpresa e ainda comentei com uma amiga: “Esse final de semana vou ter namorado.” Ele me ligou com aquele jeito absurdamente alegre, falou como sempre falava comigo, ele estava com os pais dele matando a saudade da família primeiro passou aqui na frente de casa, mas disse que não parou porque o pai dele estava dirigindo e estava resolvendo umas coisas mas que assim que terminasse ele passaria aqui em casa pra me ver. Eu esperei ansiosamente, ele não apareceu e eu estranhei muito porque ele nunca disse que iria fazer algo e não fez. Esperei o resto da noite de sábado e o dia de domingo. Acordei na segunda-feira e pensei logo: “Vou ligar pro Andrey porque não é possível que ele tenha esquecido de mim assim e me deixou esperando”

A manhã foi bem corrida, mas passei a manhã de segunda-feira pensando nele com o coração apertado, mas não passou pela minha cabeça que algo horrível tivesse acontecido. Eu apenas pensei que ele deveria ter tomado todas com os amigos dele e que estaria numa ressaca surreal, peguei a Gabi na escola e vim pra casa, e é de lei assistir o noticiário do horário do almoço enquanto organizado as coisas dela e coloco o almoço na mesa, eu estava em outro cômodo da casa, mas deixei a televisão com o volume alto e escuto: “Estudante de medicina….” não ouvi o resto porque Gabriella começou a fazer barulho mais alto do que o da televisão então fui até a cozinha e perguntei pra senhora que trabalhava aqui na época: “Nazaré qual foi a noticia que deu?” Ela disse: Um estudante que mataram.

Naquele momento fiquei desesperada querendo ouvir a noticia novamente e já sentindo que seria o pior, mas claro que a tinha esperança de não ser afinal existem vários estudantes de medicina, novamente o apresentador falou da noticia e colocou a foto dele e naquele momento eu só fiz gritar e chorar desesperadamente, meu telefone começou a tocar e eu estava em estado de choque não conseguia falar, nem ouvir… só queria não acreditar.

Não consegui ir ao velório porque eu não tinha forças, tomei calmantes e fiquei dopada e não aceitava me despedir dele pois a única coisa que eu conseguia lembrar naquele momento era ele dizendo que estava muito feliz com tudo de bom que estava acontecendo na vida dele. Ele não tinha planos de vir pra cá naquele ano, naquele dia, mas uma prima dele pediu muito que ele viesse estavam todos com saudades e ela pagou a passagem dele.

Porque só hoje eu estou escrevendo isso? Ordens médicas.

O médico disse que externar o que aconteceu e o que eu sinto me ajudaria já que até hoje tenho ficado introspectiva e sofrer calada não é a melhor solução.

Não estou agüentando de saudades, de dor por tamanha injustiça. Ainda não prenderam quem fez isso com ele, a justiça é cega, lenta e ainda se faz de burra.

Esse monstro que fez isso com o Andrey, tirou do nosso convívio um filho único e exemplar, um pai de três filhos, um amigo inesquecível, um homem honesto, feliz e que lutava por tudo que acreditava. Quando um filho perde os pais esse filho se torna órfão e quando os pais perdem um filho? É uma dor tão sem tamanho que não existe nome pra justificar.

Nenhum antidepressivo é capaz de amenizar a sua ausência muito menos horas com um psicólogo tentando contornar esse vazio.

A morte me tirou a chance de ser feliz, mas eu preciso que a vida me dê apoio pra acreditar que um dia terei uma nova chance de ser feliz.

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Fernanda Ramalho

Mãe, Publicitaria, Acreana do pé rachado, Louca por fotografia, Mulher, Completa, especialista em limpar vomito e bumbum de nenem. Também sou ponto de referência. Sim "logo ali depois daquela gordinha" mas isso vai mudar coloquei o balão intragastrico dia 8 de Junho e em 7 meses eliminei 39 kilos mas ainda não atingi minha meta portanto continuo em pleno processo de emagrecimento e ainda no ano de 2011 irei para o segundo balão intragastrico.

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